Annobon no Diário de Notícias

Estamos habituados a histórias épicas repletas de seduções e rendições quando nos debruçamos nos quadros histórico-míticos das mil e uma noites. Sherazade e a sua parafernália de situações encantam- -nos sempre, tal o poder dos seus relatos e descrições de sentimentos. Ao mesmo tempo, tudo o que lemos e absorvemos é incrivelmente atual, tudo o que diz respeito ao teatro dos sentidos está afinal como os antigos descreveram. O chocolate, esse mudou muito, tornou-nos a nós também muito diferentes. Os produtos comerciais atualmente disponíveis roubaram o sentido do sagrado aos sacerdotes astecas, transformando-os em deliciosos pedaços comestíveis e partilháveis que não dispensamos e que distribuímos por praticamente todas as idades, sem pruridos nem aspetos exóticos de preparação ritual. Gostamos de chocolate, gostamos de o sentir na boca, e gostamos das mil nuances de aroma e sabor que nos entra pelo portal dos sentidos. Temos à cabeça o património da pureza, relacionado tanto com a percentagem de cacau quanto com a marca de terroir – solo e clima – que pode representar a origem de cada chocolate. 67% de determinado produtor ou proveniência pode significar muito mais dureza – chocolate mais “escuro” – do que 80% de outro fabricante. Certo é que quanto mais próximos estamos da semente ancestral, dispensando a manteiga de cacau, leite e as partes periféricas da fava, mais próximos estamos do que conhecemos quanto falamos de chocolate negro. Seja como for, o bom chocolate é sempre equilibrado, independentemente da percentagem de cacau que apresenta. Importante é o primeiro contacto, tanto nos chocolates como nas pessoas. Queremos brilho homogéneo, aromas francos e consistência que oferece resistência ao trincar mas que se torna dócil na continuação. Quando já o temos na boca, continuamos a querer equilíbrio, e premiamos a fusão de sabores, quando levamos com a língua os pequenos pedaços trincados contra o céu da boca, exatamente como fazemos com o queijo de pasta mole quando o provamos. Leonor Ranito e João Paulo Azevedo criaram há exatamente 10 anos a Annobon, movidos tanto pela paixão comum pelas coisas e muitos mundos do chocolate como pela criação de produtos e estilos inéditos. Annobon é o nome de uma ilha perto do arquipélago de São Tomé e Príncipe e, ao mesmo tempo, significa, nos dialetos quase tribais, uma colheita de cacau de excecional qualidade. Escolheu bem por isso o casal a marca comercial para a sua ventura. Leonor é hoje uma maître chocolatière de muito elevado nível, com liberdade total para criar, conferidas pelas sucessivas formações avançadas que paulatinamente foi vencendo. Conheci-os num dos eventos Chocolate em Lisboa em que tive o prazer de participar enquanto animador e jurado, e desde logo criámos laços fortes, com os olhos postos no gosto comum pelo fabuloso e histórico produto que é o chocolate. Dos muitos e bons títulos que disponibilizam no mercado, escolho quatro para relatar aqui, os restantes ficam para a pesquisa individual de cada um. As tabletes para acompanhar vinho (6,95 euros cada), apresentam- -se em duas versões e, das muitas que conheço e provei, primam pela inteligência na conceção e pela relativa flexibilidade que permitem. Além disso, chocolate e vinho deve ter sido a primeira prova perfeita que os vinhateiros clássicos fizeram. A Annobon tem duas tabletes neste delicado capítulo e eu não hesito em recomendar ambas. Foram desenvolvidas em conjunto com Manuel Vieira, um dos enólogos mais experientes de Portugal, com reconhecido talento para harmonização de vinhos com comida. O resultado não podia ter sido mais feliz, o chocolate para acompanhar vinho branco tem também a indicação de harmonização com vinhos do Porto Tawny datados e é impressionante a forma como se molda a cada um. O chocolate para vinhos tintos assenta mais na forte percentagem de cacau e especiarias e por isso é brilhante com vinhos do Porto Ruby. Absolutamente geniais são as tabletes da linha origens (preço médio 6,50 euros), no conjunto configuram um autêntico mapa- -múndi. A quarta recomendação recai na tablete Bio 65% originária do Peru, um tratado de pureza e intensidade de sabor e de como ambas andam de mãos dadas. Muito para descobrir no universo Annobon! dnot@dn.pt


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